14 novembro, 2010

O direito ao mesmo do homem mais poderoso que os outros mesmos todos

A grande parada desce pelo mundo que não se sabe outro diferente para lá dele. A grande parada é um parque de diversões entretido sobre si mesmo. A grande parada torna todos os homens parte de si, e assim só fica a grande parada para assitir à perversa descida de si própria. Aí vão todos os homens para ali metidos, para dentro da grande parada, terreficados e iludidos, com o corpo inscrito à regra assombrosa que inscreve no mesmo movimento todos os corpos, para que não aterrorizem a sua ilusão e não iludam o seu terror, todos para ali assim metidos, para que não se desiludam nem se desaterrorizem, que a grande parada desce sempre, e quando acabar, há-de voltar. Que a grande parada quer-se para sempre - longa vida à grande parada! Amordaçados pela repetição festiva de um gesto terrível, que enche o palco do mundo de uma vida tremente, assim vão para ali metidos, para que não se oiça nem a sua ilusão nem o seu terror, que de tão iludidos e terreficados nem sequer sabem existir em si.

É absolutamente encantadora. Sobrepõe-se a todas as outras paradas, que desta vez o mundo assumiu a máxima extensão do fio elástico.

Assistindo a esta lenta e submissa passagem, abstraiu-se por um momento da sua própria encenação - que tinha coberto este mundo até à última das paisagens -, e pensou, Foi difícil submeter a tão grave solução o meu reduzido pensamento, que é encoberto pela mesmíssima névoa que engole a mesma grande parada, não fosse esse o mesmo lema dos meus homens. Um terror que engole a transigência da ilusão e uma ilusão que esconde o escuro do terror. Também eu estou iludido como os homens que encenei, é que tal autor tem de entrar na mesma vida de tais personagens, e o mundo? o mundo esse, deve ser o palco exacto para tal vida, ou não fossem os meus homens os mesmos homens e os seus sonhos os meus sonhos.

18 agosto, 2010

As tágides

São como duas irmãs sonâmbulas, e estão resguardadas dentro dos seus vestidos, que são o tecido justo do seu corpo nu, como a palavra é exacta à descrição que falta. Altas são e percorrem o espaço; ao seu movimento fazem vincar as ervas que sucumbem ao arrastamento daquela solenidade de trajes: são coisas vivas que elas vestem! e usam a própria natureza sobre os seus corpos; cobrem-se com mantos verdes de algas e de mar; enfeitam-se com flores e pelos seus cabelos há um múmurio de plantas e de segredos que se inclina e que se insurge nas pontas, amarrando e cedendo. Confundem-se com as árvores - é estranho como conseguem reservar tal graça, acalmando em si a vida que trazem, para partilhar nas árvores a mesma imagem surda e o mesmo repouso mudo, que as torna troncos e ramos do que é contudo igual a si, e que assim, é da mesma raíz que vem.

Neste estado de coisas, em que o som é o do vento e o movimento o das folhas, e dos arbustos,
o do céu a descer a meia-luz, atrás da cidade, para que a sua noite se estenda, vu! Há um gesto que se solta. Um vagar húmido que se larga da árvore, uma lentidão vaga que se deprende. Nascendo com uma precisão absurda, a criatura torna-se concreta e una. Uma espécie de mulher, que é bela e encantadora, e que da inconsciência de o saber ser tem também a sabedoria tranquila da velha que está prestes a morrer; mas que é criança, e que brinca sempre, que se surpreende com aquilo que faz parte do mundo - uma espécie de mulher que não tem medo nem está perturbada, e que vem do mar, dos seus confins, e que se confunde com as árvores. Que bonito. Contudo, de certo modo austera: tem o olhar sob a penumbra de um entretanto, uma máscara que é a sua própria cara, indefinida e difusa como uma armadilha, e que ela usa porque infelizmente sabe do que é que é feito o mundo. Talvez seja esse o seu único defeito.

O jardim é então absorvido pela presença dessa mulher e de outra criatura que é a sua irmã. Agora são duas mulheres, altas, a percorrer o espaço; a inundá-lo consigo próprias; a atirar aquela alma em todas as direcções, quase sem o propósito de o fazer - o que só torna tudo ainda mais maravilhoso, aquela naturalidade interior sem um fim. Sabem declamar poesia, estas criaturas, e falam fluentemente sobre a vida e têm em si até mesmo a consciência dos outros seres que poderiam ter sido, se a vida tivesse sido outra. Lançam-na sobre o jardim, uma poesia que atravessa o ar e ressoa.

Há um momento em que o som se consome. Entram tambores que inauguram a chegada dos pássaros. Pássaros que trazem o caos. Até no caos elas sabem estar e ficam bem. Riem-se do caos, contorcem-se mutuamente e brincam com os seus corpos, as duas, misturam os seus dedos e os seus braços. Quase que dançam, e juntas tomam posturas agudas e desmaiadas. São água estas criaturas. Giram, e estendem os corpos para agarrar os ramos e para se esconderem neles. Cansam-se de tanta vida que deitam para fora, sopram profundamente através de uma respiração que é um eco. É bonito. Duas irmãs que partilham entre si toda a vida que existe, toda a beleza lhes é dada as duas, que sorriem como crianças, e que dançam. Que se repetem entre si e no jardim. Não é por gritarem com mais energia que tem de ser mais rápido. Têm tempo.

16 julho, 2010

Vuuuuuuuuu. Vuuuuuuuuu

É porventura necessário deixar o ar entrar; abrir as janelas que estão lá fora, ao relento lá fora, e que deixam o ar entrar quando está sol. Levam uma vida tão submissa, as janelas; estão tão coitadas de si mesmas, assim, atrás das portadas, sempre à espera que haja sol, pacientes por um vento que seja preciso cá dentro, para lavar a casa e para passar a sua arajem sobre a dormência da noite, das camas, da sonolência dos móveis, do espaço vazio. Pois desta vez, decido por fatalidade que as janelas estejam sempre abertas, que se abram no meio desta tempestade, que não é tão forte lá fora como é a tempestade de cá de dentro. Só que lá fora o temporal move-se, abana tudo, faz as coisas baloiçar. E cá dentro, a tempestade solidificou, congelou-se; ela não causa nada, mas está cá, no entanto, e faz parte da mobília que enche este espaço dormente, e que está vazio de coisas que se movam; o temporal de cá de dentro contagiou a casa, contagiou as portas, as mesas, as camas, o ar fechado - porventura as janelas permanecem a meio passo entre a doença (que é a da dormência e a da loucura) e a janela aberta que abre o ar de lá de fora, e o deixa entrar cá para dentro. Decido então que se abram as janelas e as portadas e que a tempestade entre. Que venha a tempestade! Que desarrume tudo, e que as janelas sintam uma vez que seja um vento que deixe tudo de pantanas, que não seja aquele sol morto de sempre, que vem deixar tudo no mesmo estado e que leva só o cheiro. Desta vez, que leve tudo, que lave tudo, que corra por aqui adentro, a subir as escadas e a descer, a bater as portas, a quebrar o temporal terrível que cobriu as minhas coisas.

03 junho, 2010

O vazio: já nem saber

Por querer fazer de alguém,
E da persuasão que sobre ele tem,
Aquilo que ele não é.

Por acreditar que pode ser outra coisa,
Mesmo que nem sequer ele a ousa,
Mas que contudo, se faz força para que a contenha.

Por querer tudo para si,
Ainda mesmo manipulada
Pela própria manipulação que faz de mim.

Por acreditar conhecer de tudo,
O que contudo, tudo tem,
Que é a mágoa de não saber o que realmente é.

Por ser pessoa mais que as outras,
Que conhece ter muitas contas,
E desconhece estar enganada.

Qual? Ninguém.
Tudo gira,
Na incerteza porém de já nem saber quem.

24 maio, 2010

Os kiwis e os pimentos

O senhor Sotssas talvez pudesse ter tido a delicadeza de ter feito a barba esta manhã, mas o senhor Sotssas é um homem que quando se levanta, só tira as calças do pijama e sai de casa. Nesse dia, acordara do lado direito da cama, deixara a porta no trinco, saltara a cancela do metro, dera um pontapé num seixo, desviara o olhar durante cerca de um minuto e trinta e dois segundos a uma mulher que pertencia à nouvelle vague francesa e que saíra dos argumentos do Godard. Quando a senhora Lampreia lhe perguntou se tinha acordado bem, percebeu nitidamente que os kiwis e os pimentos que tinha ido comprar ostentavam no descanso solene das caixas de fruta e de vegetais, respectivamente, a mesma consciência dos kiwis e dos pimentos do outro dia e que partilhavam consigo uma relação duradoura e intrínseca que não estava contida nos seus pêlos faciais nem se orientava pelas manchas da sua camisa. De facto, os kiwis e os pimentos, concluiu, nunca o tinham olhado com o mesmo desdém das pessoas do comboio (de quando o cabelo estava em ruidoso conflito sobrepondo-se numa enxóvia tamanha com referência à guerra civil de espanha e com nota de rodapé para as revoluções liberais francesas), e desde então nunca mais se sentiu indelicado ao sair de casa.

18 maio, 2010

O medo

Secalhar o que há de tão fascinante em arquitectura é precisamente o momento em que o projecto está concluído ao revés da lapiseira e, sobretudo, ainda não se tornou um crime.

20 abril, 2010

Well, I've been down so goddamn long that it looks like up to me


Into this house we're born Into this world we're thrown Like a dog without a bone An actor out alone
Riders on the storm

There's a killer on the road His brain is squirming like a toad Take a long holiday Let your children play If you give this man a ride Sweet family will die
Killer on the road, yeah

Girl you gotta love your man Take him by the hand Make him understand The world on you depends Or life will never end
Gotta love your man, yeah