
Um homem caiu nos pulsos durante o inverno.
Da areia, os cotovelos, e dos dedos, espuma apenas. Quantas vezes quis ele estar assim, naquela posição específica e muda, debruçado na mesma emoção que uma mulher já experimentara um dia, quando os seus seios surgiam no seu vestido mais leve, no alpendre da sua fazenda, virada para a savana africana, enquanto ouvia o apanhador de café ceifar o descampado e murmurar para ela nos seus lábios mirrados:
Eu agora estou aqui,
Apercebo-me que estou mesmo aqui,
Igual a tudo como um tijolo na parede.
No sítio onde o Natal passa.
E onde passa a véspera de Natal,
A véspera de Ano Novo,
As estações, as colheitas e as mós,
E onde a minha a foice passa
Enquanto eu penso que é mesmo possível morrer.
E todos os dias do tempo e da minha vida passam
Enquanto eu ceifo.
Mas eu queria tanto do mundo que há do outro lado,
E oferecer-lhe a beber do meu café,
Bebendo-o sentados na cabana dos Maori.
Eu agora estou aqui,
Apercebo-me que estou mesmo aqui,
Igual a tudo como um tijolo na parede.
No sítio onde o Natal passa.
E onde passa a véspera de Natal,
A véspera de Ano Novo,
As estações, as colheitas e as mós,
E onde a minha a foice passa
Enquanto eu penso que é mesmo possível morrer.
E todos os dias do tempo e da minha vida passam
Enquanto eu ceifo.
Mas eu queria tanto do mundo que há do outro lado,
E oferecer-lhe a beber do meu café,
Bebendo-o sentados na cabana dos Maori.
Mas agora o homem era somente ele, numa praia deserta pelo gelo de Novembro, sem mulher e sem café, cujas posses físicas eram apenas o gosto de chupar a pele salgada, ali todo sozinho, único personagem da sua história com a barba mal feita e por fazer. Via as coisas à sua volta com uma cor mais clara do que o que ele esperava, porém, escura à mesma – talvez fossem só os seus olhos uma infeliz reminiscência do cinema a preto e branco. Agora que o desenvolvimento próprio lhe chegava – sabia muitas respostas a perguntas sobre a história do mundo e das antigas civilizações, conhecia muitas sinfonias e sonatas dos mais altos génios, conhecia a mais densa qualidade da sétima arte, feita pelos melhores realizadores e com os melhores argumentos e significados, tinha numa estante muitos êxitos do rock, tinha estado em muitos países e falava sobre eles fluentemente, tinha visitado muitos museus e observado as mais famosas telas, tinha lido muitos clássicos da literatura, e tinha feito muitas outras coisas fantásticas – e a natureza à sua volta lhe parecia mais completa do que quando vagueara pelos primórdios da juventude, decidiu avançar mar adentro, consciente de si, sempre na mesma posição, quase fetal, com a mente aberta e embrionária. O homem também sabia que não tinha mais ninguém com quem falar. Tinha conhecido pessoas e lidado com essa sua forma tão peculiar de andar pelo tempo, superando-se, por isso a sua confusão já era maior.
Tornou-se alimento das ondas, sem se importar por quanto tempo, e também ele engoliu uma golfada do profundo azul. E aí, nesse estádio máximo, a que ele quis chamar solitude, encontrou todo o mundo – todo ele assim redondo, de pernas cruzadas, sem as suas densidades e relevos, nem peso. Não havia razão nem comportamento. Já nenhum deles tinha lados, paredes interiores. Eram eles em pleno.

Sem comentários:
Enviar um comentário