O coração acabou por estoirar, mesmo sentado na marquise. E quando os dias foram ficando mais curtos, aí nem se podia, de tão longas que eram as noites, e de tanta escuridão que havia para chorar, que houveram as manhãs em que ainda não tinha chorado a escuridão toda, e a luz foi-se encurtando, como que para acumular à noite os restos que sobraram da anterior. A marquise fechada, o ventilador ligado. O coração.
De consolo sobrava o sono, que deixava passar o tempo, e a noite passava com ele, mesmo antes de se abrir os olhos. Foi então aí que começou a fumar o tempo, porque os cigarros eram iguais e o cachimbo tinha de caro o que não lhe faltava. Já de mal, quer isto quer aquilo fazia; tudo fazia, concluiu, no fim de contas. E quer chorar quer fumar, que diferença havia, porque ele fumava à séria; não era daquele fumo que ficava sem parecer que fica, era um fumo complicado, que parecendo que não havia de ficar, ficava mesmo, para se ver, morrer, e tudo.
(sem deturpar os cigarros temporais da inês, e agredenco-lhes por inspiração)

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