08 setembro, 2009

Foi um homem que esperou

Já nenhum pássaro canta a estas horas e Thomas Janson apoiou-se de ombros no balcão da bilheteira. Está fechada. Da noite, entrava para dentro um sopro frio de folhas cansadas que o inverno indelicado não evita em alcançar: a entrada está cheia de coisas vazias - que se levantam penosamente, giram, e esmorecem mais distantes, numa distância mais próxima, tão próxima como o vento. Thomas encosta-se verdadeiramente ao balcão desta vez - não faz parte do cenário e agora torna-se num público nebuloso que desaparece atrás do espaço. Encolhe-se no casaco. De todas as vezes que o vento sopra, o tempo urge, e o tecto ameaça uma ruína improvável, por um ruído imprudente que lhe enche os pulmões, como se o coração também esperasse a queda das coisas - ou uma companhia semelhante. Há três alguéns fora da estação, que olham repetidamente pelos vidros, todos numa pose de alcateia, muito clara, amplificando-se sob o fumo de um e de outro cigarro. Às vezes, passeavam-se do lado de dentro, movendo-se como um carcereiro, e reparavam se toda a gente os reparava, e toda a gente eram dois ou três, e Thomas Janson incluia-se desta vez, porque esta ambulação transpunha-o para o lado de sempre, sob o olhar vigilante que não era o seu. Um guarda, que empregado já está despedido, espera que a manhã venha, para se desempregar de novo na noite seguinte. A senhora do guichet aberto ri-se pausadamente - e ninguém reconhece que ela pertença ali, ou talvez seja somente um vestígio do surrealismo, que as mentes perturbadas não aborrecem em repetir. Dentro de trinta minutos, tinham errado somente três comboios vazios pelas dormências das plataformas - isto supunha-se cá de baixo e três vezes assim se ouviu um eco digital que não sonha, nem pede, nem morre, mas só anuncia. O telemóvel ressoa dede as profundezas do bolso e os faróis de um automóvel acendem a rua. Mas sim!, é o frio invernal de um inverno tão cansado, que o faz amar estar assim tão sozinho ali, através de um sopro que congela a verdade das coisas, num espaço em que não existe nada, senão a vontade de ir e a vontade de chegar.

24 agosto, 2009

A terra à beira-mar

Atrás de um feto há uma sequóia, e atrás dela há ainda uma índia, que debruçada, abre às sombras os braços, gritando um filho pelas pernas. O Brasil afinal é mais assim, é capaz. Não é os os sujos nem os dominados nem os eufóricos, nem os loucos que enfim são iguais a todos, nem os que caíram para o sol cansado. Nem só. Há searas, e na Amazónia os índios escondem-se. É preciso falar o que eles falam. É preciso não ser-se estranho, e as pessoas são estranhas quando somos um estranho. E as caras são feias quando estamos sozinhos: é preciso falar o que eles falam. E as coisas são mesmo assim. Mas hoje as ONG's estão no estendal, do avesso. Nasceram pelo instinto generoso, mas dividiram terras, puseram fronteiras, e partilharam entre si o espaço, no sentido menos generoso do termo partilhar. Os governos nasceram pelo instinto organizador, e puseram de tal maneira a sua ordem na natureza, que já julgam que a própria natureza é sim a sua ordem e não o contrário. Hoje o património do Brasil, e das coisas todas, é património deste e daquele, do país de cima e do vizinho também. A terra desterrou-se e já não se pertence a si mesma. As coisas desencontraram-se e já não se encontram. Os índios são património. No entanto, os índios escondem-se. As sequóias e os fetos existem, uma corrente que sopra nos pulmões, e as florestas e as searas pertecem à mesma respiração de sempre, ora viva ora morna. Do outro lado, o mar também se insurge e se abate, e ele move-se mesmo - já as fronteiras, as leis, mexem-se, e, mais para fora do que para dentro, sempre dormentes.

17 julho, 2009

Para trás

Sei que não vais sair do teu sono pesado,
Nem abrir os braços quando me vires cair do sofá
Em que nos deitámos.
Recordo que abri os meus quando passaste,
Quando tropeçaste propositadamente no meu colo,
Que pareceu ter, nem mais nem menos, a forma da tua mágoa antiga;
A sombra do coração pequeno que trazias; dos cabelos soltos que já não tens.
Soluços intermitentes na ponta das minhas ansiedades,
Que julgo não saber a quem pertencem.
E não te os conheço. Nem às tua névoas nem aos teus modos,
Nem mesmo até aos teus lugares-comuns.
Nem ao som que fazes quando o teu sopro salta da varanda.
Soprava-te o Raul Brandão pela garganta,
E punha-te o pó dos móveis pelas narinas,
Enquanto os teus joelhos se esforçavam no meu peito.
Sei que fico neste pátio, quando a tua mancha desaparecer,
Seguirei o mesmo atalho de sempre, que depois da estação,
Me leva sozinho onde nunca cheguei.
Sei que não vais sair do teu sono pesado,
Nem saltar para fora do corpo que queres manter, agora.
Apesar de o saber,
Pico o ponto na esperança que trago
E que estranhamente parece nem se desvanecer
Quando os teus dedos já ficaram para trás.

14 julho, 2009

Alguém

Alguém para dar a resposta, sem saber a pergunta.

19 junho, 2009

E agora não sei

Roda o relógio na corda de pano
E morro de não saber se é medo
Ou se é vontade o que há no tempo.
Se virar as costas, esqueço.
Se aguentar os pés e os dedos, enlouqueço.

Mas há que eu saiba o ponto-suspenso:
Andar e não ver.
Se for a
vivo-tempo, tremo:
Ficar e lembrar.

Já não sei os meus segredos.

Só que as coisas vão e venham,
Na roda e roda que finge que gira,
Se cá fica o resto – e a saudade que dele ficou -,
Nem ter nem ser são o remédio;
Se há algum, eu não sei qual.


Eu não sei qual, eu não sei qual.

06 junho, 2009

À Janela

Hoje reparei que há um céu à minha janela.

03 junho, 2009

Eu o contrário 392

Querer saber de um mal
Que de curto ou longo
Pouco acrescenta,

Ou nem mesmo nada traga,
É coisa com pouca vontade.

Da pouca vontade,
Vem-lhe o pouco valor.
Continuamente é coisa que só se nota,
Quando não se espera.
E se da expectactiva já fizesse parte,

Não haveria a quem lhe espantasse a existência:
Só o mal nos desilude; quanto bem já houve
Que morreu na espera de ser notado? Todo ele.
Mais sentido que um copo partido,
Ou que um grito do oxigénio, não foi.

Há que eu sinta pena de não ver como se vê,
De esperar como não se espera,
De não querer como se quer.
Mas haverá para nós sensatez na culpa
Do bem maior que não cheguei a ter,

Como se vê,
Como não se espera,
Como se quer,
Eu o contrário?