08 novembro, 2008

Câmara oculta



Rastejando os pés pelo chão. - assim o fazia. E no Outono - por isso esperava tanto pelo Outono -, fazia-o tal como os pássaros do sul indo em seus longos voos, precisamente com o mesmo encanto; fazia-o rastejando-os na relva, como que se mostrando às árvores frondosas que, à proporção da sua altura, imóveis eram elas, e sacudia todos esses aviões de papel pelo chão, velhos e sujos à imagem do Outono, que já antes têm o hábito de se perder enquanto descem sobre o ar, caindo em transição, e se extinguindo, por fim, de leve. Marchava, sacundindo tais aviões, de papel como as folhas, e que o são mesmo. E marchava sempre mais rápido do que no início, até que o silêncio se sucedia, em pleno.
Viajou então, à volta de trezentos e sessenta dias, e à volta dos mesmos sítios de todos os dias de sempre, ocupando o seu papel exterior. No fim de tudo, sai então do seu lugar no público, lugar de sessão, constante a todas as passagens na tela, constante como um espectador errante, e, saindo assim daí, chega perto do mundo e diz de repente:
- Não aprendi nada.
E todo o mundo, suspenso sobre si mesmo, tornando a pausa para seus gestos e discursos, esclarece:
- Aprendeste o mesmo que os outros.
E respondendo, sente que não têm pêra doce:
- Não entendo o que fazemos.
A câmara oculta dá um quarto de volta sem piscar a lente. Atenta, foca o jardim vazio e escuro, até que a noite se apaga para a verdadeira escuridão da lente fechada.

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