05 janeiro, 2009

Psicanálise

Sete coisas: uma sala escura, uma janela, um divã, um foco de luz, uma poltrona, um cheiro a hospital, um aparador. De repente, vejo-me tomado por uma vontade de dizer aos meus amigos que vão morrer. Às vezes nem é sequer uma vontade, mas já um reflexo automático de quando não tenho nada para dizer. Em jeito de brincadeira, pensou. A janela tremeu, e um vento pequeno entrou na sala. Quando dou pelo que vou dizer, só sobra o tempo de me calar, pois já que só depois de abrir a boca. Pensou. Não chego a dizer, não. Sinto-me mal. E então, vejo agora!, é mesmo daí que vem - e de que há -, um medo dos diabos, este medo dos diabos. Um medo para toda a minha vida, de não saber se sou eu mesmo que sou, ou se é só o meu corpo. Não sei se penso, ou se é só o meu corpo. E ao sentir-me triste ao pensar que assim talvez seja, lembro-me se é só o meu corpo que se sente e que pensa assim, e o meu cérebro, e o meu coração, e as minhas unhas, também. Não quero ser perverso, mas prefiria nunca ter nascido, que esforçar-me para nascer todos os dias. E se quer que lhe diga, até penso que o meu corpo é que é o único perverso aqui. Sinto que o meu corpo me supultou em si próprio e em tão dura saudade por pouca coisa quanto nada. Tudo isto faz um medo, um receio de não ser eu; um receio de que inevitavelmente eu terei de passar pelo que o meu corpo quer sentir, ou até que nem quer. Não sentiu o cheiro de um cigarro no cinzeiro do aparador, mas alguém o lá tinha posto. E às vezes, até é uma perda de memória. Sou maluco por, na verdade, não estar realmente onde estou. Pergunto-me se já fiz aquilo, e a resposta que recebo é que não me lembro. Tenho um certo pressentimento que são coisas, coisas a mais. É demais para mim, estas pessoas a falarem e a rir, constantemente durante todo o dia, só à noite é que não, mas mal por mal, até acaba melhor por ser o dia. São tantas vozes a pensar em nada ao mesmo tempo, que até me enjoo de estar aqui. Mas voltando ao que queria, é o que penso. Esqueço-me do que faço a pensar no que penso. Preocupo-me com o que penso e enquanto penso nisto, faço sem pensar aquilo. Percebe? Não admito mais nada, só que estou sozinho dentro de mim, sem deixar sair e sem deixar entrar, deixando as coisas em condensação. Aí sentiu-se como um corpo que caía, e até o disse a seguir. Sinto-me como um corpo que cai.

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