07 abril, 2010

Flash, Um Retrato

Sim, ela sabe precisamente quem é: alguém que não reconhece existir de facto. Por isso, mesmo não tendo sido colocada no centro, cuja posição pertencia então aos alicerces, à bisavó, ao bisavô e ao pai - os três, quase como estatuária, em cadência e em quebranto - ela assumia negligentemente o papel fundamental; em toda a sua presença reflectia-se precisamente esse reconhecimento de não estar mesmo ali, de não saber pertencer ali, de não declarar com autentificação conhecer esses homens e essas mulheres e agir de certa ou de outra forma com eles, de não ter percebido descender realmente daquelas pessoas, e ser sua irmã, sua prima, sua filha, sua neta, sua sobrinha - no fundo, alguém que descende de alguém e em quem se espera que também conceba. O que é isto? Ela assumia, tão depreocupadamente, com uma mão que cai no próprio ombro e outra que cai suspensa, o papel mais evidente - o qual o artista procurou nitidamente revelar - que era, dessa forma, bem nítido o facto de que ela era, como eu, o próprio observador do retrato a que ela mesma pertencia, e que, à medida que o meu olhar discorria lentamente sobre as figuras, como com uma vaga dormência de um bocado de pó que ofusca e distorce, ela pertencia tanto ao lado de dentro como ao lado de fora, e chegava mesmo a estar ao meu lado, observando-se também, como se a fotografia fosse, de certo modo, um espelho. Mas tudo isto são só metáforas, porque o que acontecia realmente, em todos os recantos do seu corpo, em todos os gestos da sua presença, em todas as cadências, recuos e gracejos da sua tumultuosa existência interior, que era como a queda em buliço de um riachozinho que cava os seixos, era que ela própria era um espelho; era o seu espelho, e ao agir, ao ser, ao fazer, o que quer que fosse, ora ela fazia ou se via, ora ela era ora ela se observava, se apreciava, se comentava, com frases quietas e pouco avassaladoras, que se contrapunham assim às interjeições e enfatuações mais íntimas de oh!'s e ah!'s, ou mesmo de ei!'s, das figuras restantes que deste modo pareciam reagir-lhe.
A composição era notável. Não havia simetrias imediatas, paralelismos claros nem analogias levianas, e a cor tinha sido infimamente estudada, a luz era mais proeminente na parte de trás, e o grupo era quase uma imagem de santuário; o tapete era rebuscado, a janela coberta por cortinas brancas meio translúcidas que faziam adivinhar um jardim no fim de tarde, com cedros e pinheiros; todo o conjunto era literalmente escultórico, cheio de modelados que se cruzavam entre as figuras e que as cercavam; a composição deixava indícios de um maneirismo ainda elementar, e as personagens, mesmo violentas no modo como caiam no espaço e dispunham os seus braços soberanos e dominantes, moldavam-se entre si afectadamente. Havia qualquer coisa trascendente, que pairava, que nunca tinha pertencido ao mundo, nem mesmo nos tempos bíblicos. Todos estavam presentes, mas também todos estavam quietos, e pareciam, mais do que querer ficar ali, não sair de lá, como se cada avanço do tempo fosse uma vantagem para a ruína; para a ruína dos tectos em que se encombriam, das paredes em que se encerravam, dos tapetes que pisavam, das janelas que trancavam, dos parapeitos em que se apoiavam, das consciências que partilhavam, uns dos outros.

1 comentário:

Anónimo disse...

«...em toda a sua presença reflectia-se precisamente esse reconhecimento de não estar mesmo ali, de não saber pertencer ali, de não declarar com autentificação conhecer esses homens e essas mulheres e agir de certa ou de outra forma com eles, de não ter percebido descender realmente daquelas pessoas, e ser sua irmã, sua prima, sua filha, sua neta, sua sobrinha - no fundo, alguém que descende de alguém e em quem se espera que também conceba. O que é isto?»

Adoro(te).