10 abril, 2010

15 de Agosto, Lembras-te?

Viera a passar uma mão pelo peito em sinal de sufoco.
Um cotovelo suspenso, um calcanhar pesado.
Debruçada sobre a sua ânsia, remoída na sua curiosidade, chegou, enfim, ao fundo da falésia, e não viu senão um grande mundo virado de pernas, com grandes soluços que soltavam gemidos, que eram filhos de gritos, e que tinham filhos de filhos de braços abertos que chamavam aos céus duros porque tinham eles varrido as nuvens para debaixo das atenções,
Tão nubladas quando respiras, e enfim ouve-se: Oh!
E mergulha.
E mergulha desta vez com tudo o que esperou desse mundo e também do outro. Não era responsável sobre si, nem sobre o seu corpo, nem pela cidade.
Que vento tão longo que me arrasta, minha vida, pesar vosso, meu pé de rosmaninho.

07 abril, 2010

Flash, Um Retrato

Sim, ela sabe precisamente quem é: alguém que não reconhece existir de facto. Por isso, mesmo não tendo sido colocada no centro, cuja posição pertencia então aos alicerces, à bisavó, ao bisavô e ao pai - os três, quase como estatuária, em cadência e em quebranto - ela assumia negligentemente o papel fundamental; em toda a sua presença reflectia-se precisamente esse reconhecimento de não estar mesmo ali, de não saber pertencer ali, de não declarar com autentificação conhecer esses homens e essas mulheres e agir de certa ou de outra forma com eles, de não ter percebido descender realmente daquelas pessoas, e ser sua irmã, sua prima, sua filha, sua neta, sua sobrinha - no fundo, alguém que descende de alguém e em quem se espera que também conceba. O que é isto? Ela assumia, tão depreocupadamente, com uma mão que cai no próprio ombro e outra que cai suspensa, o papel mais evidente - o qual o artista procurou nitidamente revelar - que era, dessa forma, bem nítido o facto de que ela era, como eu, o próprio observador do retrato a que ela mesma pertencia, e que, à medida que o meu olhar discorria lentamente sobre as figuras, como com uma vaga dormência de um bocado de pó que ofusca e distorce, ela pertencia tanto ao lado de dentro como ao lado de fora, e chegava mesmo a estar ao meu lado, observando-se também, como se a fotografia fosse, de certo modo, um espelho. Mas tudo isto são só metáforas, porque o que acontecia realmente, em todos os recantos do seu corpo, em todos os gestos da sua presença, em todas as cadências, recuos e gracejos da sua tumultuosa existência interior, que era como a queda em buliço de um riachozinho que cava os seixos, era que ela própria era um espelho; era o seu espelho, e ao agir, ao ser, ao fazer, o que quer que fosse, ora ela fazia ou se via, ora ela era ora ela se observava, se apreciava, se comentava, com frases quietas e pouco avassaladoras, que se contrapunham assim às interjeições e enfatuações mais íntimas de oh!'s e ah!'s, ou mesmo de ei!'s, das figuras restantes que deste modo pareciam reagir-lhe.
A composição era notável. Não havia simetrias imediatas, paralelismos claros nem analogias levianas, e a cor tinha sido infimamente estudada, a luz era mais proeminente na parte de trás, e o grupo era quase uma imagem de santuário; o tapete era rebuscado, a janela coberta por cortinas brancas meio translúcidas que faziam adivinhar um jardim no fim de tarde, com cedros e pinheiros; todo o conjunto era literalmente escultórico, cheio de modelados que se cruzavam entre as figuras e que as cercavam; a composição deixava indícios de um maneirismo ainda elementar, e as personagens, mesmo violentas no modo como caiam no espaço e dispunham os seus braços soberanos e dominantes, moldavam-se entre si afectadamente. Havia qualquer coisa trascendente, que pairava, que nunca tinha pertencido ao mundo, nem mesmo nos tempos bíblicos. Todos estavam presentes, mas também todos estavam quietos, e pareciam, mais do que querer ficar ali, não sair de lá, como se cada avanço do tempo fosse uma vantagem para a ruína; para a ruína dos tectos em que se encombriam, das paredes em que se encerravam, dos tapetes que pisavam, das janelas que trancavam, dos parapeitos em que se apoiavam, das consciências que partilhavam, uns dos outros.

17 fevereiro, 2010

Uma andorinha total

Morremos pela boca. Tudo pela boca. Dizemos pela boca e pecamos pela boca. Comemos pela boca, e adoeçemos pela boca. Tudo pela boca. Se não tivéssemos boca, senão disséssemos nada, as coisas seriam o que realmente devem ser; não seriam o que se diz que elas são, nem se diria que se ama nem se diria que se tem saudades, e, sem boca, seriamos apenas coração. E as coisas, o que seriam? Seriam o que realmente devem ser, ou seriam o mesmo do que pela boca são? As coisas seriam o que o coração seria. E o coração seria o que as coisas devem ser. Morre-se pela boca. E quando se fala pela boca, alguém fala pela boca também, e às vezes fala-se tanto pela boca, mesmo quando não se diz nada, e às vezes também morremos, como quando cai uma andorinha e não se sabe se vêem mais.

30 outubro, 2009

São assim as raias

Sempre que contas as vezes em que abriste a porta, subiste as escadas num atropelo, arrombaste o quarto e lançaste o teu corpo para fora da janela, pesado como uma folha já sem força, que balança facilmente com o vento, até eu me arrepio. Não procures mais; nem facilites o encontro do que ficas para aí esperando, nessa ânsia desmedida de ter outra janela a que te possas atirar ainda com mais força, mas que tenha também alguém no mesmo quarto para te puxar pela cintura e deitar-te nessa cama.
Mas olha, não sujes mais a fonte em que te banhas, nem desiludas mais a tua própria água na esperança de um rio (que tardemente se duvida aparecer), para que possa livrar as suas mágoas, e escorrer nele como uma água livre e solta, em direcção a uma água ainda mais una, mais toda, e mais completa. É que no mar também há cardumes tão grandes que bastam para que te percas, e há vagas tão enormes que te enrolam contra as rochas, e noites tão compridas que calam toda a luz e escurecem todos os lugares onde ela hoje tinha ainda chegado, e recantos tão vagos que te fazem recordar se já ali houve vivalma, e grutas tão revoltas que te fazem sentir medo de lá naufragar.
Não procures mais, nem tentes. Abre já os teus braços, digo-te, e deixa que as coisas te apareçam nesse colo, durante esta chuva, e que, por uma vez, não sejas tu a fazer a tua mágoa de procurar, mas que tenhas o prazer de encontrar, de encontrar coisas tão boas, que nem julgas verdade serem tuas. Mas abre-me esses braços já, digo-te, e nem te escondas, nem julgues ser mais, nem menos. Só então lhes pega, nessas coisas tão doiradas; e vai, e vive.

04 outubro, 2009

Normal

A mulher desconhece a sua loucura. Não é a insanidade o que ela leva: é apenas a vontade de se desviar. Ao olhar para trás, repara que os passos se tornaram lentamente mais pesados, pesadamente mais lentos, numa descontinuidade que evolui cansadamente. O monte anuncia à aproximação do fim. Não há um horizonte, e atrás da curva permanece um suave rumor de um desconhecido que não virá a tornar-se verdade. A mulher vem a arrastar uma cadeira por aquela longa relva e ao chegar à sombra de um enorme castanheiro, senta-se e não pensa mais nada. Alguém se lembrou que só se desviando do trilho comum, chegará onde nenhuns chegaram.

23 setembro, 2009

Um grito

Acordar, e o corpo descalço, e a manhã clara, e uma mão na cama, e a paz.

18 setembro, 2009

Work Me, Lord

Janis, the worst you can say all about me is that i'm never satisfied. Whoa.