22 outubro, 2008

Borboleta Monarca, Filme Noir

Era violeta futurista. - se bem que já nem algum futuro lhe restava, pois essa cor nas paredes, de 72, ainda sabia mais histórias do que as violetas nos prados. Encostou as têmporas na janela, quase que criando um vácuo entre o vidro e o ouvido, cujo timbre de repente estalou, e então sentiu como se o sangue enregelasse todo e se partindo, parecesse mil estalactites caindo. Apertou as pontas dos dedos, para condensar a dor subtilmente. E se alguém tivesse ali registado, numa máquina de escrever, esse compasso de vida, entre seus tracs, ruídos e carpidos, antes desse último ponto final, haveria de se saber que ele desviara as pálpebras repentinamente, e olhara a parede, cheio de intensidade nos olhos, e quando o cérebro girara apenas sobre as pupilas, elas se tornaram mais e mais profundas e cresceram e cresceram quase até rasgar a córnea, e que, ao vê-la, naqueles tons extraordinariamente qualquer coisa, semelhantemente cansados, e cansadamente vivos, pôde aperceber-se duma borboleta quase verídica, dançando na parede e chamando-o para se juntar a ela, enquanto rodopiava de novo sobre a tinta. Apercebeu-se da sua essência, e que ela sempre estivera rodopiando à sua volta, chamando-o para se juntar à dança da vida, como os sufis, os maori ou os índios. Apercebeu-se finalmente, se seria possível que ela nunca tivesse reparado na quão bela se torna, quando, rompendo o casulo, e, abrindo seus lençóis ao vento, decide viver continuadamente nele.

Sem comentários: