18 janeiro, 2009

In Heaven

Eraserhead No Céu Tudo É Perfeito

In Heaven, everything is fine
You've got your good things, and I've got mine

In Heaven, everything is fine
You've got your good things, and you've got mine

In Heaven everything is fine

17 janeiro, 2009

This Is Not Love Song

A Valsa Com Bashir

15 janeiro, 2009

Valsa Inferior

Quando acabei de respirar o golfo do Éden, senti uma certa valsa no estômago. Era como lhe chamei, ainda mal mal lá cheguei, Éden, tal foi a terra!, ainda nem me tinha deitado nela. Principalmente, havia dois prados maiores, cor de mel no calor, frios não se sabe quando, que se distinguiam por estarem cada um de cada do lado do meu senhor nariz. O amigo, meu ou não, de alguém ou senão, fizera, por ele mesmo, uma cerca branca, plantada a toda a volta do bosque mais pequeno, salgueiros, e também da casa - mas uma cerca toda bonita -, uma cerca, esta cerca, que me fez voltar a sentir como se eu fosse meu. Essa cerca podia fazer-nos pensar em coisas. Dois pares de traves entre cada par de estacas: quatro brancos, uma vertical, quatro horizontes, uma sem ele - contei. Além disso, a cerca só decorava; decorava o terreno para o fazer parecer uma tela que ainda ninguém tivesse pintado, e decorava as horas do sol, que a fizeram realmente escarnecer do seu verniz, e vergar-se em estalos, pouco a pouco, poucas vezes em muito tempo, mas que eu só a assim vi passado quinze anos, que, sem nenhuma razão aparente, como me habituei a não dizer, não passaram por nada, passaram-se só eles, sozinhos e sem mais nada.
Então, respirei.
Imaginei sem querer.
Vem plebeu, nasce comigo.

05 janeiro, 2009

Psicanálise

Sete coisas: uma sala escura, uma janela, um divã, um foco de luz, uma poltrona, um cheiro a hospital, um aparador. De repente, vejo-me tomado por uma vontade de dizer aos meus amigos que vão morrer. Às vezes nem é sequer uma vontade, mas já um reflexo automático de quando não tenho nada para dizer. Em jeito de brincadeira, pensou. A janela tremeu, e um vento pequeno entrou na sala. Quando dou pelo que vou dizer, só sobra o tempo de me calar, pois já que só depois de abrir a boca. Pensou. Não chego a dizer, não. Sinto-me mal. E então, vejo agora!, é mesmo daí que vem - e de que há -, um medo dos diabos, este medo dos diabos. Um medo para toda a minha vida, de não saber se sou eu mesmo que sou, ou se é só o meu corpo. Não sei se penso, ou se é só o meu corpo. E ao sentir-me triste ao pensar que assim talvez seja, lembro-me se é só o meu corpo que se sente e que pensa assim, e o meu cérebro, e o meu coração, e as minhas unhas, também. Não quero ser perverso, mas prefiria nunca ter nascido, que esforçar-me para nascer todos os dias. E se quer que lhe diga, até penso que o meu corpo é que é o único perverso aqui. Sinto que o meu corpo me supultou em si próprio e em tão dura saudade por pouca coisa quanto nada. Tudo isto faz um medo, um receio de não ser eu; um receio de que inevitavelmente eu terei de passar pelo que o meu corpo quer sentir, ou até que nem quer. Não sentiu o cheiro de um cigarro no cinzeiro do aparador, mas alguém o lá tinha posto. E às vezes, até é uma perda de memória. Sou maluco por, na verdade, não estar realmente onde estou. Pergunto-me se já fiz aquilo, e a resposta que recebo é que não me lembro. Tenho um certo pressentimento que são coisas, coisas a mais. É demais para mim, estas pessoas a falarem e a rir, constantemente durante todo o dia, só à noite é que não, mas mal por mal, até acaba melhor por ser o dia. São tantas vozes a pensar em nada ao mesmo tempo, que até me enjoo de estar aqui. Mas voltando ao que queria, é o que penso. Esqueço-me do que faço a pensar no que penso. Preocupo-me com o que penso e enquanto penso nisto, faço sem pensar aquilo. Percebe? Não admito mais nada, só que estou sozinho dentro de mim, sem deixar sair e sem deixar entrar, deixando as coisas em condensação. Aí sentiu-se como um corpo que caía, e até o disse a seguir. Sinto-me como um corpo que cai.

31 dezembro, 2008

Mundo Cão

Quem quer que tenha roubado o lenço vermelho, uma coisa eu sei - não fui eu. Porque há-de haver quem ficasse sem o saber, há-de haver quem soubesse que não ficava e não ficava mesmo, quem não saiba que estava sequer, e ainda quem morresse só para o fazer e, claro está, sem ficar, ficava. Já eu nem sei nada, nem sei se fico nem sei se fui ou se vou, e não sabendo se chego a ficar, é como se não esteja, e o lenço vermelho volta para trás mesmo antes de chegar. Por tudo isto, ela, sabendo de tudo o nada, só parou nas janelas.

Vendo o dragoeiro no jardim, a mulher da Embaixada - lá está, sabendo de tudo o nada -, vem com a sua voz em ar de provocação e de lá diz - lá do encalce de lá de baixo: Não, chega. Se os frutos caiem de manhã, não quero que os apanhes. Deixa-os sangrar na relva, que daqui, de onde eu ando, vindo e voltando, é o mais bonito de se ver, sabes. Essa mancha, sabes. Ao menos, alguma coisa há que ver sangrando, nem que seja fora, porque aqui dentro só cá estou eu para o fazer. E quando houver, no jardim, mais que te pareça magoar, nem toques, porque, na verdade, faz companhia.

Voltou para dentro. E, deixa que diga, mesmo à noite, ainda sobrava ar da hora do chá - quando ela falou lá para debaixo - e soltou os elefantes para que comessem os frutos. Quando se voltou a deitar, quer dizer, antes, abriu a janela, e, agora, mesmo quando se deitava, claro está, ai!, como estava iludida. Vindo a maresia do fundo do quarto, nem horas de tudo ainda havia. O autoclismo rodou, e perguntou para si que se passava, e lembrou-se que perdera a memória. A Embaixada estava escura, mas antes da janela estoirar e o jardim nem haver para se lembrar dele, a mulher viu, sabes, encontrou, assim dizendo, o lenço vermelho escondido na cama, sem sequer alguém o lá ter posto alguma vez, ou alguma vez ele ter existido.

20 novembro, 2008

Voz passiva

Às dezasseis horas, doze minutos e dezoito segundos do dia vinte e um de maio ele virou a cabeça contra a sala e olhou para lá da janela. Três segundos antes houvera um beija-flor que saltara do seu plátano no jardim e enquanto os dois segundos que levou a atingir o degrau não tinham passado, passou uma massa de vento de intensidade média a cento e vinte e três pés de altura e soprou do fundo de si para uma nuvem que deslizou sobre o ar e num tempo imperceptível houve ainda um raio que passou entre os flocos de água e resplandeceu nas penas verdes da asa do beija-flor sem que ele desse por isso, tornando-o tão belo e dourado que nem ele saberia alguma vez que o tinha sido.
Só depois o beija-flor, descendo levemente, atingiu o cimento com o mínimo som e, da janela, ele olhou-o como um espectador endoidecido mas calado. O beija-flor desceu um ou dois degraus, e entre descer mais outros dois ou três, parava à beira de cada patamar, e redescobria de todas as vezes, como que se quisesse confirmar, que se encontrava realmente no centro de onde estava. Olhou-o muito confundido com o que se passava, e entre seu vórtice interior, houve qualquer sinapse (certamente um neurónio muito génio durante a época em que viveu) que lhe ofereceu o desejo de ser tal como o beija-flor, saltando de degrau em degrau e redescobrindo-se a todo o momento sem ter a noção de que o fazia - pelo menos era isso que tinha sonhado. Descendo mais três ou quatro, o beija-flor saiu, e desapareceu atrás duma parede branca sem que ele mesmo tivesse notado. Tempo de voltar.

08 novembro, 2008

Câmara oculta



Rastejando os pés pelo chão. - assim o fazia. E no Outono - por isso esperava tanto pelo Outono -, fazia-o tal como os pássaros do sul indo em seus longos voos, precisamente com o mesmo encanto; fazia-o rastejando-os na relva, como que se mostrando às árvores frondosas que, à proporção da sua altura, imóveis eram elas, e sacudia todos esses aviões de papel pelo chão, velhos e sujos à imagem do Outono, que já antes têm o hábito de se perder enquanto descem sobre o ar, caindo em transição, e se extinguindo, por fim, de leve. Marchava, sacundindo tais aviões, de papel como as folhas, e que o são mesmo. E marchava sempre mais rápido do que no início, até que o silêncio se sucedia, em pleno.
Viajou então, à volta de trezentos e sessenta dias, e à volta dos mesmos sítios de todos os dias de sempre, ocupando o seu papel exterior. No fim de tudo, sai então do seu lugar no público, lugar de sessão, constante a todas as passagens na tela, constante como um espectador errante, e, saindo assim daí, chega perto do mundo e diz de repente:
- Não aprendi nada.
E todo o mundo, suspenso sobre si mesmo, tornando a pausa para seus gestos e discursos, esclarece:
- Aprendeste o mesmo que os outros.
E respondendo, sente que não têm pêra doce:
- Não entendo o que fazemos.
A câmara oculta dá um quarto de volta sem piscar a lente. Atenta, foca o jardim vazio e escuro, até que a noite se apaga para a verdadeira escuridão da lente fechada.